Estudantes de Umirim transformam resíduo do dia a dia em esfoliante corporal e representam a unidade estadual JA do Ceará entre as dez finalistas da competição da Junior Achievement do Brasil
O que normalmente termina no lixo ganhou uma nova função nas mãos de estudantes das escolas públicas do Ceará. A borra de café, resíduo comum nas casas e na rotina escolar, virou matéria-prima para um esfoliante corporal artesanal criado por 35 alunos da Escola Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Maria Iracema Uchoa Sales, em Umirim, a cerca de 90 quilômetros de Fortaleza. A ideia levou a Acquare S.A./E à final do Prêmio Miniempresa Brasil 2026, colocando o Ceará entre os finalistas da competição nacional promovida pela Junior Achievement Brasil.
A equipe cearense agora se prepara para deixar a sala de aula e apresentar o negócio em uma arena nacional de empreendedorismo. A decisão será realizada de 7 a 12 de outubro, durante o Findinexa Brasil, em Luís Correia, no Piauí. No evento, os estudantes participarão de uma feira de Miniempresas e terão até três minutos para defender a ideia diante de uma banca de jurados. Ao final da programação, serão anunciados os três primeiros colocados do Prêmio Miniempresa Brasil 2026.
Mais do que criar um produto, os jovens precisaram pensar como empreendedores inovadores. Na Acquare, a borra de café é reaproveitada na produção do esfoliante, que também leva hidratante neutro e óleo de coco. O produto é comercializado em embalagens de 150 ml e incorpora ao negócio uma proposta de logística reversa: depois do uso, o recipiente pode ser devolvido e gerar desconto em uma nova compra.
A experiência de transformar um resíduo cotidiano em oportunidade de negócio também colocou os estudantes diante de desafios que ultrapassam a fórmula do produto. “Criar a Acquare foi uma experiência muito especial. Nossa ideia surgiu quando toda a sala se uniu para enxergar novas possibilidades em algo que seria descartado; assim pensamos em transformar a borra de café em um esfoliante, dando nova vida ao que antes seria desperdício. Aprendi sobre criatividade, organização, trabalho em equipe e sobre como uma empresa é construída de verdade. Um dos aprendizados que mais me marcou foi perceber que uma boa ideia só ganha vida quando existe união, dedicação e coragem para acreditar nela”, destaca a estudante Maria Jennifer de Sousa Brito, 15 anos.
A Acquare é uma das dez Miniempresas que avançaram para a etapa final do Prêmio Miniempresa Brasil 2026. Ao lado do Ceará, estão representantes de Minas Gerais, Piauí, Santa Catarina, Pernambuco e Rio Grande do Sul. A seleção considerou a trajetória das equipes ao longo do Programa Miniempresa, incluindo aspectos como solução desenvolvida, proposta de valor, resultados, impacto, gestão, sustentabilidade e aprendizados.
Empreender antes de sair da escola
A chegada da Acquare à final nacional é resultado de uma experiência que começa dentro da escola. O Programa Miniempresa, desenvolvido pela Junior Achievement Ceará, coloca estudantes do Ensino Médio em contato direto com diferentes etapas de uma empresa. Eles assumem funções nas áreas de Recursos Humanos, Produção, Marketing e Finanças, desenvolvem produtos, definem estratégias de venda, administram recursos e tomam decisões sobre o negócio.
Para Ana Lúcia Teixeira, diretora executiva da Junior Achievement Ceará, experiências como essa ajudam os estudantes a perceber que o empreendedorismo também pode nascer de soluções simples para problemas do cotidiano. “Quando o jovem aprende a transformar uma ideia em solução, ele desenvolve não apenas habilidades empreendedoras, mas também autonomia, criatividade e confiança para construir seu próprio caminho”, afirma.
No Ceará, a iniciativa faz parte de uma trajetória de duas décadas da Junior Achievement no Estado. Desde 2017, a organização mantém parceria com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) para levar programas de educação empreendedora aos estudantes da rede pública. Ao longo dessa história, a JA Ceará já contabiliza mais de 860 mil experiências de aprendizagem, com o apoio de 8 mil participações voluntárias em 202 escolas e 115 municípios cearenses.
Para os estudantes de Umirim, entretanto, a experiência já representa uma mudança de perspectiva: aquilo que antes seria apenas borra de café passou a ser visto como possibilidade. E é com essa ideia — de que empreender também pode começar pela capacidade de enxergar valor onde antes parecia haver apenas descarte — que a Acquare chega à disputa nacional.
A sensação é de orgulho e felicidade, diz a estudante Lara Luzia Sales Gonzaga, 16 anos. “Saber que a Acquare vai representar o Ceará em uma competição nacional mostra que todo o nosso esforço e dedicação estão valendo a pena. É uma oportunidade incrível de levar um projeto que nasceu na nossa sala de aula para conhecer outros lugares e também aprender com estudantes de diferentes estados. Tenho muito orgulho de saber que todo esse esforço nos trouxe até aqui e que ainda temos muito para viver e aprender com essa experiência”, ressalta.
0 Comentários